sábado, 9 de setembro de 2017

Sabedoria

você sempre soube
que as coisas terminariam
assim
e mesmo
assim
foi

sempre soube que o medo
venceria
suas pernas
e cansaria seu coração
como um amor
de verão

sempre soube que o amor
seria paixão
e mataria suas entranhas
uma de cada vez
todas por uma vida
inteira
deixando você pobre
pedindo esmolas
de alma
em 
alma

você sempre soube
e mesmo assim 
foi

sabia da dor
sabia do vazio que sentiria após tomar dois ou três copos de cerveja
sabia do desespero que a acordaria de madrugada
sabia da imensidão solitária de seu ser
pedindo por mais alguém
para preencher os metros quadrados
a venda
sendo alugados
por qualquer um que deixasse pisar
em seus calos
sentimentais

sua coragem não se define na ausência de medo
nem na força
inumana
que cria para superar as dificuldades
mas no pensamento de que as coisas irão dar muito errado
e
mesmo assim
continuar sua procura
e
tentar novamente
amar

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Ecos à noite



A noite parece um parque de indagações. Enquanto a maioria se encontra em terras distantes e imaginárias, e alguns se encontram embriagados, eu me encontro inconformado e pensativo com tudo e todos que tiverem a oportunidade de passar pela minha mente. Os livros no banquinho que chamo de criado mudo, os livros na estante que nunca foram lidos, a coleção de filmes não assistidos, as perguntas nunca feitas, os relacionamentos que nunca existiram. A noite calada a não ser pela música transpassada pelos meus fones de ouvido. Eventuais carros quebram o silêncio e a serenidade das ruas e avenidas, mas não há ninguém para notar nem o antes e muito menos o depois. Somos o que somos e muitos são apenas aquilo que não são. Trocar a capa e manter a mesma história não faz ninguém acreditar que seja uma boa pessoa, a não ser através dos olhos do corpo. Os olhos da alma verão quem és, verão outono e inferno e primavera. E o vento bate, afaga e balança as janelas vorazmente, quem sabe na próxima investida não me leve refém de meus próprios desejos terrenos. Tudo treme, inclusive meu coração e meu eu, brincando pelo parque noturno das ideias sóbrias e peculiares. No meio de tudo, tento escrever, tento exercitar a já difícil tarefa que é botar sentimentos presos no cerne de quem sou, de quem somos, em significantes cheio de significados, ambiguidades, completudes, respostas. É um exercício complicado, cada expressão encontrada é um sucesso, uma conquista, um beijo de amor verdadeiro em um bar lotado. Mas para que escrever, sobre o que escrever? Escrevo talvez apenas pelo ato, escrevo apenas porque me dói se não o faço; sou mais incompleto do que antes, o abismo que em mim habita é maior e mais visível se eu não o alimento numa perspectiva negativa: quanto mais eu tiro, menor ele fica. Quem sabe não seja isso o que todos tentamos em situações diferentes. Para mim, a solidão afia o meu eu. Para quem mora ao lado, quem sabe o nada bem aplicado seja o remédio para os males; a ignorância reina absoluta dentre mares e oceanos de vida, apenas um ou dois rios não são navegados. Para quem está fora, quem sabe o calor de outros não satisfaça em mais de um sentido. De alguma maneira estamos sempre em busca de algo que preencha um buraco que parece crescer cada dia que se passa, cada conhecimento adquirido, cada amor amado e destituído de cargo. Se tento encontrar uma solução para tamanha tortura da existência em meio a nuvens mentais e ausência, sou apenas mais um que deve parar e pensar que raios estão caindo nas planícies do para sempre sempre nunca. Se amo, amo por ser quem sou, amo por quem és, e se sou amado e não correspondo, deveria enganar quem sou, sendo o que não sou, mentindo sentimentos para que o abismo de outro não seja ainda mais comprometido? Quem sou para alimentar a desilusão de outros seres? Talvez estejamos fadados a mesma dança eterna: eu vou, tu vais, ele e ela vão, todos dançam, todos se conhecem, todos se entendem, todos se encarnam, e todos logo vão-se. Digo que tudo são círculos e quem sabe não estamos sempre a dançar valsa, rodopiando pelo salão das ideias, preenchendo abismos, buracos e rachaduras com aquilo que parece mais correto, com aquilo que parece concreto, com aquilo que não pareça tão vulgar à nossa essência. Somos o que somos, somos o que nunca seremos: dançarinos da morte, tentando encontrar em cada parceiro, em cada dança, em cada música, cada som e palavra, um significado para a finita finitude de nossas vidas tão poucas e tão grandiosas. Amarguramos-nos quando as coisas não dão certo e sonhamos acordados com pesadelos do que poderia ser. Há coerência em sofrer por aquilo que não foi assim como há coerência em sofrer por amor? Deve haver se souber ler, se souber entender. Uma música toca, um abraço aquece, lágrimas derramam e a vida se esvai. Não há nada que eu possa fazer em minhas palavras a não ser afirmar o que é óbvio e ignorado. Mas quem, enfim, em consciência pura e honesta, com as velas acesas e os ecos notívagos rondando, quer saber da verdade que bate e bate na porta até que ela seja aberta e, ao fim, haja luz? 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Silêncio


Eu a conheci num fim de tarde, me sentido como um pedaço de chocolate para cobertura na presença do calor: meio amargo, não sabendo se me derreteria por completo ou se continuaria sólido. A atração foi mútua e foi sincera; havia nela um tom de canela, um pouco de açúcar, que poderia desamargar meu coração férreo. E assim ela fez com seu carinho, suas palavras de afeto, seus gestos de doçura, apaziguando o azedume em meu peito. Quando não nos víamos, nos correspondíamos por mensagens diárias, velocistas das distâncias físicas. E nos amamos...

Até o Silêncio.

Passados dois meses de paixão avassaladora, eis que surgiu o dilema da distância. Não eram mais os quilômetros que haviam entre nós que nos distanciava: eram os silêncios abruptos que surgiam no frio do dia, quando havia necessidade de afeto e carinho, quando precisávamos de uma fogueira só para saber que ainda havia luz após um dia que não foi um dos melhores. Quem respondia o chamado daquelas mensagens tão simples, envoltas por uma complexidade e um sentimentalismo que apenas os conjugados da relação poderia entender, como uma língua secreta válida somente aos amantes, era o Silêncio. As horas passavam e o Silêncio continuava me respondendo, mandando charadas e pensamentos que eu não queria acreditar que poderiam ser sólidos.

O Silêncio, então, começou a gostar da minha companhia e passou a me responder com mais frequência. Algumas vezes, ele passava mais de um dia falando comigo em sua linguagem encriptada. Eu não gostava de sua presença e deixei claro isso: moço, não quero falar com você, mas, sim, com minha Amada, então, por favor, se manda. Três dias depois, lá estava ele, falando pelos cotovelos.

Então as desculpas, não mais os presentes ou os ingressos de cinema, passaram a ser compradas. As saídas ficaram escassas. Estou sem dinheiro este mês, quem sabe no próximo. Promessas eram feitas nos raros momentos em que havia voz, e o ilusionismo de uma relação refrigerada era o que nos fazia companhia quando o Silêncio, chato, insuportável, indesejado, não calava sua boca. Só continuávamos ali por inércia; o atrito causado pelo Silêncio ia nos parando aos poucos, aos poucos, aos poucos... Quando vi, uma mensagem foi respondida. Não eram mais dois dias de presença do Indesejado. Eram dois meses. O que era amor, açúcar e risadas escancaradas se tornou lábios fechados, arrefecimento, chocolate de cobertura.

Tentamos realizar uma revolução e nos revitalizar. Parte ainda era a inércia, parte era o sentimentalismo enganado gerado pelo canto da sereia que cutucou meu coração depois de tanto tempo. Tentamos sem sucesso reencontrar aquele fim de tarde, com seu sol derretendo sua luz por entre clarões róseos e nuvens alaranjadas. Tentei correr para reencontrar aquele cenário, mas ele já havia sido esgotado; não havia mais assentos para nós.

O Silêncio me deu conforto por mais sete meses enquanto desaprendia a falar; aprendi apenas a escrever esperando ter minha voz escutada. Os sons cessaram, os pássaros migraram, o coração moldado em tenaz estrutura endureceu novamente. Se não há vozes que coloquem pontos finais nos sofrimentos amorosos, onde podemos colocá-los na falação do Rei Silêncio além de em nós mesmos? Já não sabemos falar; deixamos o Indesejado reinando por inércia, sem guerra alguma que ameace destruir seu reino, enquanto tentamos prosseguir com nossas vidas, esperando que haja risos e doçura novamente.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Persistência

No que adianta o ano ser novo, se as ações e os pensamentos são os mesmos, retrógrados, de sempre? Quando as coisas começam a ir mal, esperamos a nova oportunidade surgir, e ela surge na forma de um novo ano. "2016 foi horrível, mas 2017 está logo aí". Nunca paramos de ter esperança de que algo bom, afinal, acontecerá. Estamos destinados a grandeza, não estamos? Não foi isso o que nos ensinaram mas que não aprendemos? Uma hora as coisas darão certo, e o próximo ano, ou o próximo, ou o próximo, virá com a solução de nossas calamidades.

Chega o primeiro dia e pensamos "agora farei tudo diferente, serei uma pessoa melhor, vou à academia e comerei comidas saudáveis. Abandonarei aquele amor podre que guardo no coração e que já começou a mofar seus arredores. Estudarei/trabalharei com toda a dedicação que sou capaz. Serei uma pessoa melhor, transformarei meu eu num eu melhor". Até que a imaginação dura, pois as metas são frescas, as ideias possuem feições mais agradáveis em nossas mentes. Quando tentamos exercê-las no mundo real, elas são deturpadas, relaxadas, esquecidas e abandonadas. No que adianta ter esperança se não há persistência? Desistir perante as dificuldades é a coisa mais fácil do mundo; muitos batem com a cara na escama dura da vida real e não suportam a dor do encontro. Mas deveríamos persistir. A humanidade não chegou onde está desistindo quando os problemas diários se mostram mais complicados do que pareciam a princípio. Nem sempre os acontecimentos serão agendados ou seguirão nossos sonhos: eis, portanto, a graça da vida, enfrentar aquilo que não está, nunca esteve e/ou nunca estaria no roteiro de nossas vidas. 

Deveríamos abandonar aquilo que nos faz sofrer e nos leva pro fundo do poço; deveríamos resistir às tentações que sabemos que são prejudiciais; deveríamos ter esperança, como temos, e não desistir jamais de ter aquilo que tanto queremos. Quase nada na vida vem fácil, entretanto é grande a lista daquilo que fácil se esvai. Se quiser amor, procure amor. Se quiser companheirismo, converse. Se quiser desistir, peça ajuda. Mas não duvide de suas capacidades, não duvide de quem é, não duvide de seu corpo e muito menos duvide de seus sonhos. Aproveite o ano que virá e conserte aquilo que deu errado. Reate velhas conexões, corte aquilo que só te destrói de uma maneira ou outra e persista. Mais importante do que ter novas oportunidades é agarrá-las e não soltá-las. Se cada dia do ano que logo mais vem é uma nova página, use-as com sabedoria, escreva em todas com tudo aquilo que puder. Carpe diem, memento mori. Do que servirão as dores e arrependimentos uma vez que estivermos mortos? 

O ano é novo. Todos os dias que ainda não chegaram são novos também. Você não é novo, já tem bagagem, já tem experiência. Não cometa os mesmos erros, não desista. Seja mais humilde, mais empático e mais racional. Seja mais passional. Se equilibre no muro das emoções e seja mais humano. Mais você. Seja mais seus sonhos e transforme-os em realidade. 

Feliz 2017, e, por favor:


Não desista.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Covardia



Era uma vez um covarde que se metia, uma hora ou outra, durante seu caminho escuro e desconhecido, em alguma situação em que a covardia de sua mente falava mais alto do que a coragem de seu coração.

Uma vez, ele conheceu uma garota pela internet e ficou conversando com ela por meses, apenas acariciando o sentimento que tinha por ela, mantendo vivo com sua própria respiração, mantendo a luz somente para si mesmo. Ele só foi se abrir em relação aos seus sentimentos quando uma terceira pessoa, conhecida dele e da garota em questão, se envolveu na situação e garantiu que a moça estava, também, queimando sua própria tocha de sentimentos. Uma vez seguro, ele avançou. Namoraram.

Uma vez, ele conheceu uma garota numa livraria, e ó meus deuses, ela tinha todos os livros que ele queria ler e muito mais. Demorou vários encontros para que ele finalmente tivesse a coragem de fazer alguma coisa... ele saiu correndo uma hora, chegou na casa da felizarda e a pediu em namoro. Não houve um beijo, houve apenas um abraço. O beijo viria dentro de uma semana e meia. As borboletas em seu estômago, a ânsia de fazer algo errado mesmo parecendo que tudo saria certo. As superações. A vergonha e o mal-jeito.

Uma vez, ele se apaixonou intensamente por uma garota de sua sala e nunca, jamais, até o dia de hoje, disse que a amava. Ele preferiu seguir a vida sem fazer a escolha ousada que poderia machucá-lo. Ocultar. Esconder. Dissimular. Mentir. No final, ele deixou muito tempo passar e a perdeu.

Uma vez, esperando uma amiga na saída do shopping, ele se deparou com duas meninas conversando. Ele olhou para uma delas. Ela retribuiu o olhar. Houve um sorriso, uma faísca. Ao passar de novo pela saída, agora uma entrada, ele se deparou com as garotas ainda conversando. Ele olhou. Ela olhou, Houve sorrisos. Houve faíscas. Ela falou olá. Ele falou um olá tão travado que pareceu ser mexicano. Quis voltar e rir da situação, pedir o número de seu celular.  Ele seguiu a vida.

Uma vez, ele baixou um aplicativo para encontrar garotas e encontrou várias. Conversou com menos da metade. Menos do que um terço ou um quarto. Menos, menos. Quase se envolveu com uma delas e, como toda relação recíproca, ela esfriou e ficou no limbo.

Uma vez, ele sonhou com uma garota que já conhecia. No sonho, eles se beijavam. O beijo era bom, era feito de luz e pura felicidade. Ele acordou feliz e entrou na internet. Viu que a garota beijada no sonho namorava e voltou a dormir.

Várias vezes ele foi a festas sem saber por quê. Bebeu, sentou, esperou a noite passar. Mulheres passaram, mulheres sentaram, mulheres conversaram, mulheres se foram. Nunca houve nada. Nunca havia espaço para nada. Ele não se dava espaço ou permissão para o desperdício do momento.

Agora ele só quer ser feliz, mas sabe que é um covarde. Quer chamar uma garota, a mesma do sonho, para sair há meses, e não tem a coragem o suficiente para fazer a ligação. Manda indiretas para saber se ambos tem o mesmo interesse e nunca recebe uma resposta válida. Ele se pergunta "é seguro? Deveria fazer isso mesmo? E se ela não gostar de mim? E se ela disser não?". E se, e se, e se... O medo é mãe de todos os arrependimentos que virão com o decorrer da vida.

Somos poeira estelar rotacionando em cima de um planeta que circula uma bola de fogo que circula dentro de um sistema próprio, dentro de uma galáxia, de uma faixa de coisas desconhecidas que talvez nunca nomearemos. Somos carne, mente e alma. Somos aquilo que somos no momento que somos e num momento adiante, estaremos todos mortos, voltando a ser poeira estelar e almas soltas, encarando a rotação da existência em seu infinito existir. Vivemos nossas vidas com dias finitos nos preocupando com coisas que, no fundo, não deveríamos. Nos preocupamos com as festas, com o trabalho que ocupa mais horas de nossas vidas do que gostaríamos, com as pessoas que somente nos fazem mal, com os negativos e caóticos lados das coisas. Nos preocupamos com os erros, desde os de digitação até aqueles que colecionamos dia a dia. Não há certo e errado. Não há dicotomia na vida ou extremismos. É só que parece mais fácil se dividirmos dessa forma. Eu e você. Nós e eles. Fiz algo certo, fiz bosta.

O medo, a covardia, surge de várias formas. Você pode ter medo de fazer aquela ligação. Pode ter medo de perder a pessoa que mais ama. Pode ter medo de morrer sem fazer aquilo que mais queria. Pode ter medo por saber que um dia vai morrer. Pode ter medo de seguir a carreira de seus sonhos por achar que não vai dar certo. Pode ter medo de flertar, de se machucar. De seguir a vida. Medo de ser você. Medo de se sentir sozinho pelo resto dos dias que virão e, portanto, sentir a necessidade de sair todas as semanas em busca de algo que preencha seu coração vazio, como bebidas, comida ou sexo que nada significa além de uma bela diversão momentânea. Somos uma nação de medrosos, covardes. Passamos nossas vidas buscando maneiras de continuar a farsa, fingir que está tudo bem quando a ferida é exposta e sangra com frequência. As máscaras só servem para dançar. Todo o momento se esvai. Todo passo dado é um passo a menos, cada respiração é uma respiração a menos. Errar é humano, todos dizemos isso, mas sabemos que há uma hipocrisia. Ninguém quer errar. Ninguém quer aceitar as verdades da existência, as consequências. Somos covardes com nossas máscaras dançando a dança da sobrevivência e da exclusão.

E era uma vez um covarde, um super covarde, cuja única função era apertar um botão e ligar para a garota de seus sonhos.

Ele apertou. O celular começou a chamar. Ela atendeu, ele fez o convite. E a resposta dela foi:

domingo, 23 de outubro de 2016

Costumava



As primeiras impressões são as derrocadas da vida. Você vai chegando mais e mais ao encontro de tantas noites especuladoras em seu coração sonhador. Não mais tantas, são apenas uma. É hoje. Depois é amanhã. Você sabe que quer e você vai. As mesas espalhadas pelo céu estrelado, o calor humano transcendendo o som da virtude, a bebida pronta para arranhar gargantas com beijos de fogo frio. O bate e vai das caras antigas de minutos passageiros. Todos estão lá e todos além do mundo conhecido. Você pede o seu pedido. Derrete o frio das entranhas e se prepara para o inferno que a madrugada prepara tão carinhosamente. Mas você não quer carinho. Você quer algo um pouco mais porque hoje está demais de menos do que você gostaria. As brigas em sua alma, os tapas na cara, o azedume do passado. Você costumava dar beijos de pura entrega. Hoje que se danem os cafunes; que venham, apenas venham. Venham venham venham venham... E alguém vem. De aparência tanto faz, mas você não é tanto faz. Um primeiro não fará sua noite. Você dá a carta de derrota e segue a passagem. Chegam mais tantos. Um para cá, um para lá, todos desmerecedores. Cadê? Você olha ao redor e vê. Nem espera a chegada: é você quem chega. E as coisas simplesmente vão. O olhar. A conversa. O bafo. A mão. A puxada. O beijo, mascado dentre uma mordida. Vão, vão, vão. De repente, se arrepende. Larga a mão, puxa o ar, empurra o hálito para fora. Só vai, vai, vai. Costumava ser uma menina. Chorona, debruçada entre dores e paqueras. Hoje é uma mulher. E o sabor nunca foi tão amargo. Você gosta e volta. E volta. E volta. Volta. As noites são as primeiras impressões da derrota. Os lençóis sujos, a calcinha de seda rasgada. O ato animal. Quem? É só mais um quem. Tanto faz. À noite, todos parecem os mesmos com suas dores e desprazeres, com suas caras bêbadas no bar mais próximo. A onda te leva e você só vai e gosta, aproveita o amargor. O refluxo segue a se repetir. Cansada. Costumava ser melhor do que isso. Costumava beber menos do que isso. Costumava fumar menos do que isso. Costumava mais do que isso. Animal. Frio quente descendo a garganta, a loucura da sedução, a captura, o chupão, o ato, o prazer, o desprazer, a retomada carnal da vida. Costumava ser uma garota e agora: eis a mulher, forte, dominante, cheia de si. Costumava haver algo mais. Vem o carnalismo. Costumava ser diferente. Desolhares. Costumava só costumar, costurar um coração remendado de anos e anos de uso. Costumava dançar sozinha. Costumava ter calor. Ainda é quente, quase fervente. E lá vem o calor. Costumava ser melhor. Costumava. Costumava e amava. 

domingo, 16 de outubro de 2016

Problema

Talvez eu tenha achado o problema. Aquele velho problema que me impede de escrever, de sentar e ler um bom livro, de abrir uma janela de ar e deixar uma conversa inusitada percorrer os arredores. O problema que não é marcado com um grande X vermelho, portanto difícil de ser achado. Aquele Problema. O Problema que me impede de amar novamente, de ser romântico, de ser sincero com meus sentimentos. 

Que não me deixa ser feliz.

Que não me deixa em paz.

Que não me permite.

Que não me deixa.

Que não vai embora.

O Velho Problema, sentado em sua cadeira de balanço, balançando suas correntes de destruição naquilo que chamo de vida, rindo enquanto aprecia o caos. O Não Tão Velho Assim Problema, que sempre se repete porque eu nunca aprendo. O Problema Problemático que faz do meu ser asilo e estação, um Problema que eu tendo sempre a enxergar mas nunca ver de fato. Nunca lidar, nunca tentar. Sempre ali, gargalhando de meus fracassos pessoais: o amor que foi me dado e me foi tirado; as longas horas de conversa pela madrugada afora, os prazeres espirituais de amar; a incapacidade de dizer que amo; a incapacidade de ir além. A risada ecoa forte nas rimas clichês da vida.

"Quantas vezes tive meu eu machucado?" acabo me perguntado todos os dias antes de dormir, buscando uma solução para minha insônia peculiar. Repenso e relembro. Ela vem, depois ela, e depois ela, e depois ela... Baixo a lista de depoimentos policiais. Os boletins de ocorrência. Levo todas para uma sala extensa, cada uma segurando uma placa de identificação. A sala é fechada e as observo por uma janela de vista única. Eu as observo, mas elas não sabem de fato que estão sendo observadas. Minha visão tende a me enganar e peço ajuda de um oculista. Ele me receita novos óculos. Ainda vejo as coisas embaçadas e tenho que cancelar a grande "festa". O cenário ocorre mais e mais vezes, sempre com um novo par de óculos. Uma vez ganhei até um novo sorriso, praticamente uma dentadura. Quase recebi outro rosto, porém ficaria muito caro. Mas uma vez, a última, o oculista não veio. Nem o oftalmologista. Nenhum médico, nenhum cirurgião. Havia apenas um senhor gargalhador segurando um espelho. Ele ria enquanto a minha imagem refletida balançava para cima e para baixo por causa da cadeira. Finalmente notei o que havia de errado e pedi para os seguranças um telefone. Arranjei-me novos óculos, especiais, e tirei o espelho das mãos do senhor. As risadas pararam logo após. Observei o eco do meu ser no vidro sujo e percebi onde estava o problema. Lógico. O problema sempre havia sido eu. Não importa o que havia acontecido. Lembro dos advogados delas dizendo que as coisas assim são e que eu não poderia culpá-las de nada além do que fizeram, do que realmente havia acontecido. O restante do estrago foi feito por mim mesmo. Eu que quebrei as prateleiras do meu domínio. Eu que fingi ser poeta e aumentei minha dor. Eu que culpei a todas e todos sem me incluir na lista. Eu que havia envelhecido 70 anos ou mais e agora ficava sentado rindo da insolência das minhas ações passadas. 

Não havia esperança mais além daquela que eu mesmo injetava. A esperança escrita era sempre uma esperança morta, falsificada. A verdadeira esperança é ser. É sair. É ter a coragem de fazer aquilo que é racionalmente errado. É lavar as feridas com sal grosso e água de mar. É não se limitar a desculpas fajutas para não viver e não se machucar. 

A verdadeira esperança está em escrever, em não perder o tom. Em deixar sair aquilo que precisar, em limpar a dor com sinceridade, com música, com afeto. Com açúcar e canela. É olhar para o horizonte às 5h45 da manhã e apreciar um novo dia. É respirar fundo, se acalmar. Aproveitar o tempo e desperdiçá-lo num momento que toque profundamente seu espírito. É se deixar apaixonar mesmo que não dure. É não usar máscaras falsas, sorrisos falsos, palavras falsas, olhares falsos. É parar de tentar ser e apenas ser.  É a solução do problema, é o caminho de tijolos dourados rumo à casa. É escrever para libertar sentimentos reprimidos e escrever por pura vontade artística de ser. 

É o meu amor voltando a ser amor.