quarta-feira, 13 de junho de 2018

Sonhos à meia-verdade


Sonhei com você a outra noite
Não posso averiguar se foi a primeira
Ou a última
Mas
com excelência
Digo que foi a melhor

Acordei eufórico
Imaginando uma vida melhor
Mais feliz
Mais você e eu
O sorriso destacado em meu rosto
O quarto escuro como um segredo guardado
Ninguém jamais viu

Depois de segundos empolgados
A marca do beijo dado ainda na memória
de meu coração
Noto com formidável agonia
Que jamais fui tão feliz
Do que em alguns momentos
De puro
Fantástico
E transcendente
Amor.

Balanceio as equações da vida
Clareio as metamorfoses de minha alma
Anoto as informações num mapa
E guardo dentro de uma gaveta

Aquele sorriso
que um dia
se abrirá

e


viverá.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Pulso de vida


Em 2014, depois de ver uma garota que eu amava (sem saber o quanto) com outro rapaz e de terminar um relacionamento da maneira mais idiota possível mas que pareceu extremamente plausível no momento, neguei-me qualquer tipo de amor. Disse a mim: chega. 

E chegou: uma leva de amargor que preencheu meu coração até transbordar para minha alma. 

Tudo me intoxicava, desde a queda de meus sonhos até a destruição, aos poucos, do meu couro cabeludo. Não bastava passar pela transição da adolescência à vida adulta sofrendo apenas sentimentalmente, haveria de sentir um pouco do meu orgulho, de uma das poucas coisas que eu gostava em mim, lentamente se descolorindo. Decidi-me, então, por partido e quebrado, buscando pouco fora do habitual ócio daquele ano. 

No andamento quase que doloroso do calendário, naquele mesmo ano, por volta de maio ou junho, inventei de instalar um aplicativo chamado Tinder em meu celular. Ouvira falar dele e até tinha visto algumas amigas usando em sala durante algumas das aulas mais tediosas do cursinho do ano anterior. Resolvi tentar a sorte pois, por mais despedaçado que eu estivesse, eu sempre seria um romântico.

Parecia que a sorte se sentava ao meu lado lentamente. Ela aparecia na porta de casa, sorrindo e dizendo que passou no mercado, comprando pipoca e refrigerante. Ela se convidava para assistir um filme que eu havia ouvido falar antes, e tinha um leve interesse em assistir. Corria para abrir a porta, ela entrava, sorria. Aprumava-se antes de passar pela porta. Deixava as coisas na cozinha, me enchia de elogios durante toda a travessia domiciliar, até que chegava o ponto de se sentar ao meu lado. Sentia que as coisas poderiam ser diferentes, meu peito inflamava um pequeno fogo que verdejava, assassino e cheio de vida, por entranhas e caminhos bloqueados. Era a tal da estima, na verdade, percebi, que fazia visita nesses momentos, não a sorte. E sendo assim, em todos os convites, nunca ela ficava para assistir o filme, nunca se sentava por mais de dois minutos antes de inventar alguma desculpa, dizendo voltar depois, e ela sempre voltava, não se engane disso, a cada passada de foto, a cada combinação, match, descaradamento, chame do que quiser, lá estava ela se aprumando me aprumando aprumando minha vida singular triste bloqueada por raízes de plantas que eu mesmo plantei e nunca soube como cuidar aprumando a doçura de meus textos o relato de minhas vicissitudes acalentando auxiliando o batimento de poesia por meu sangue agridoce de espelho quebrado lá estava ela e ela e ela para depois aparecer ela e ela e ela e ela e olha só uma amizade aprumavame textos literarios poeticos teatrais uma vida passava a se orientar novamente de amor e tentativas falhas de paixao e sem mais la estava ela she was there fucking looking at me dizendo je naime pas toi e a vida seguia infrutifera sofrendo vivendo sendo vida afinal que drama era estar no palco tudo parecia otimo demais vamos ser vamos embora vamos ser elsewhere quero ser o que eu posso ser quero ser sozinho quero ser milhoes do meu melhor eu quero meu ego inflado e estourado para saber que eu posso eu eu eu nos noseueunos je me moi meu myself end ai

segui. eis que 2015 parece ser o ano das grandiosidades. mudo-me para uberaba para fazer um curso superior. é o ano da dor de abandonar aqueles que sempre me amaram, de chorar na cozinha um dia antes de partir só de pensar na despedida da partida, notas partidas junto às lágrimas. mantenho a estima estimada. se não sou o meu melhor por fora, é o app tendencioso que me ajuda a ser o meu melhor sem que as pessoas, as ladies, saibam. diversão? coisa séria? sei lá o que faço, só faço, pois é o que me aparenta ser correto.

Até que aparece uma certa garota que não morava em Uberaba e que eu, no meu desejo inflamado pelo aplicativo, combinei. Ela era de Uberlândia. Conversas foram, conversas voltaram. Recados fofos compareceram sem cerimônias. Declarações espontâneas seguiram a mesma trilha. E nada de encontro físico, um acontecimento que nunca viria a existir. Se já leu o meu texto Silêncio, você já sabe a história. A vida segue, o silêncio retalha aos poucos o que parecia ser a solução de muitos problemas (afinal, não é isso o que fazemos? Embutimos uma significação muito superior, quase utópica, de que a vida só é vivida de fato caso encontremos com o amor de nossas vidas, aí seremos felizes para sempre pois alguém nesse mundo nos amará da mesma forma que nós amaremos, todos juntos neste mundo, nós contra eles, para sempre. Uma existência romântica, esperançosa, que, se não considerar a existência de um deus, pelo menos considera a existência de uma rota planejada, um destino único, unindo duas linhas singelas num caminhar contínuo).

Tudo se segue. A queda, a libido, a euforia. Tudo vai embora, nada permanece a mesma, nos mantemos fieis à ideia de luzes ao amanhecer, ondas para surfar, bocas para beijar. Nada disso acontece, a vida se permanece, se ausenta de grandes emoções, vai embora numa piscadela à garota da porta e logo mais chama um Uber para voltar para algum lugar sem nome. 

As pessoas me parecem seguir a mesma ideia, afinal, que panfletei dentro de mim por todos esses anos em relação ao tal do Tinder: quem sabe dá certo. Entretanto ninguém sabe o que quer. Mesmo durante os encontros (existentes mais pela análise calorosa da aparência física dos indivíduos do que por qualquer outro elemento - ninguém se descreve, é muito difícil, quem se descreve se limita, bla bla bla), duas pessoas não concordam, uma quer sexo, uma quer amor, uma acha que quer amor, mas quer sexo, outra quer sexo, mas quer amor, ninguém se entende, todo mundo acaba encontrando todo mundo, vira caçador pokémon, coleciona possíveis peguetes e o Rei Silêncio reina mais uma vez na vasta extensão de seu território. E lógico, há aqueles que querem apenas se divertirem porque colecionar matches é mais legal que Pokémon Go, apesar de ambos gastarem uma bateria...

É isso o que acontece quando unimos nossa futilidade, nosso desejo de nos sentirmos atraentes para estranhos e nossa esperança, quase mórbida, de que um dia seremos felizes: cavamos um buraco ainda mais fundo dentro de nossas míseras existências cheias de ilusões e desejos, às vezes passageiros, às vezes eternos. Amor é a bandeira mais levantada, a mais defendida, e a que menos cobre os leitos na calada da noite. No meio dessa alegoria simbolizada por uma chama (uma insígnia de ginásio? Pegue todxs que puder!), o que sobra é o que sempre chega, mesmo que apenas de repente, num calafrio passageiro: uma leva de amargor que preenche seu coração até transbordar por sua alma. E você nem percebe até que seja tarde demais.

Queremos nos sentir vivos através de nossos amores (sentimentais, sexuais, familiares, de pura amizade), de nossos corpos imperfeitos, tentando ignorar sempre a fragilidade e o absurdo que regem nossas jornadas. Alguns vão em festas para se divertirem e se esquecerem de suas notas, às vezes baixas, recebidas na universidade. Alguns bebem até cair. Alguns fumam, outros injetam. Outros ficam em seus quartos se masturbando com as ideias e imagens de outros. Ficam em seus quartos passando o dedo para a esquerda e para a direita em busca de alguém que também esteja fazendo a mesma coisa. Alguns jogam, outros leem, e alguns escrevem. Passamos nossas vidas em busca de sinais de vida, de pulsos de vida, além daqueles que conseguimos identificar ao colocar um dedo na garganta. Buscamos algo que nos complete, que nos faça felizes, nem que por apenas um segundo. Planejamos nossas vidas pelo andamento lento do calendário, o dia seguinte será melhor, o dia seguinte será pior, prova, trabalho, feriado, festa. Repita a busca por pulso. Agenda, dedo para a esquerda, dedo para a direita, depois eu mando mensagem, coloca os fones de ouvido, pega o ônibus, aquela moça olhou para mim será que me deu mole?, anda, tropeça, ri, a noite chega, dedo para a direita, dedo para a esquerda, quantos amores refletidos na imensa nulidez do teto? Você sentiu algo bater? Calendário, trabalho, aula. Festa, dedo para cima, dedo para baixo, dedo vai e vem, dedos vêm e vão. Mãos quentes, mãos frias. Desejo, cerveja, risadas espontâneas, a crise da Síria, por que todas essas bombas?, Deus é Fiel!, você viu a prisão do Lula? Você sentiu? Dedos, pés, cabeças, seios e ceias. A busca continua, Ulisses ainda não chegou em casa, Winston ainda não se libertou, vai malandra, a fé ruge no meu coração de lata e nós não merecemos amor, dia após dia, amando os Jesus do tabajara. Busca, buscando, buscapé. Aniversário, casamento. Você sente algo batendo? Bata, batata, aquele filho da puta bateu na mulher, bateram o carro, e o coração de lata enferrujado? Bate? Bate? Batman. Batida, suco, vodka. Bate, bate, bate na bala. Balada, baleada. Batem na porta, onde ele está está atrasado estou esperando há duas horas neste restaurante. Bosque, busca. Você sente a batida dos pés?  A bala na boca, a bala no peito. Bate, bate. Tudo bate.

E você consegue sentir o seu pulso?

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Alugo-me



Procuro amor já sabendo que eu não me permito amar há muito tempo; vivo estagnado, como água propensa a dengue e outras doenças do coração, vivendo apenas uma ilusão de movimento sentimental só para que eu sinta, ao menos, um raio de esperança atingindo o fundo do poço. 

Em toda a oportunidade que tenho para revisitar um amor passado, fisica e emocionalmente, eu ignoro por completo as outras portas que eu poderia abrir e simplesmente volto atrás em todas as minhas decisões passadas porque parece ser mais confortável viver algo já experienciado do que me deixar entregar a um amor doado por uma pessoa que eu ainda nem conheci. Se por acaso eu a conheça, damos algumas risadas e, se possível, fico com os dois pés atrás, equilibrando meu corpo para que eu não caia de cara no chão.

Eu sempre caio com a porra da cara no chão. 

Pois essa é a realidade que eu não quero enfrentar. É a garota que diz que me ama mas que não consegue sair de casa quando quer por conta da mãe controladora. É a garota que mora a mais de 100km de distância e que eu não tenho dinheiro para visitar. É a garota que me chama para sair e, depois de uns encontros, as conversas simplesmente param. 

É o que eu faço: no primeiro sinal de problema, no primeiro alerta de qualquer coisa, corto todas as relações que me forem possíveis. "Desculpa, mas se você não tem tempo para mim, não acredito que possamos ter uma relação até porque eu acho que você está mentindo ao dizer que gosta de mim", "desculpa, mas eu não tenho 40 reais para pagar a passagem de ida e nem 40 para a passagem de volta, e, se você também não tem, que caralhos estamos fazendo aqui?", "desculpa, mas não senti nenhuma química, então como as coisas poderiam ser levemente físicas?". E depois vem o reino do Rei Silêncio, enterrando de vez um relacionamento que dava seus primeiros passos e que foi morto antes de aprender a andar sem ajuda, com a chupeta na boca e uma mamadeira na mão. 

Os amores são fluídos e transitórios (os matches no Tinder, as olhadas na rua e no ônibus, os encontros aleatórios dentro da universidade), e não sinto nada além do tesão e do fascínio do momento de encontro, deixado levemente amargurado após o ápice de felicidade por saber que cada encontro desses é uma terra infértil, onde nem o mato mais teimoso ousa crescer. 

Eu mato todas as possibilidades de amor futuro somente para reviver os amores passados, e vivo nesse ciclo há mais tempo do que gostaria. 

É como o diálogo da Princesa Leia com Han Solo mas sem orgulho: "eu te amo", ela diz, "que pena, você não deveria", eu respondo. Não quero amores novos, quero amores velhos sabendo que neles eu só acharei desgraça, infortúnios, sofrimento e conforto. Procuro constantemente esses amores velhos para que eu diga "eu te amo" e eu escute "olha, você é muuuuuuito legal, e totalmente quero você na minha vida até o fim dela, mas eu não te amo, então nada de beijo ou transa, tá certo?". 

Atiro para todos os lados no escuro já sabendo de antemão que todas as balas não ricochetear e me atingir no peito. Afinal, o que eu estou fazendo com a minha vida? Apego-me ao apego por pessoas que já tiveram moradia dentro das melhores partes de mim e esqueço que elas já se mudaram há muito tempo, sem chances de retorno. Crio expectativas em cada rabo de saia que me dê um sorriso ou ria de uma piada que eu faça. Porém sabemos como tudo isso acaba: eu, de cara no chão, em posição fetal, pensando "não dá para ficar pior". Sempre dá, meu caro, e logo mais chega uma terça de manhã em que você percebe que viveu sete anos de sua vida mantendo um quarto arrumado e limpo para uma pessoa que nunca vai te amar enquanto ignora outras possíveis moradoras, se abastando de desculpas idiotas para deixá-las longe de seu quartinho especial. 

Uma hora não é só a cara que está no chão, é a vida inteira, feita em cacos, em milhões de pequenos pedaços, e tenho que ir lá e resgatá-los, pronto para reconstruir uma vida que não pode ficar parada, incomodada por qualquer obstáculo, por qualquer chamada de néon "estou entrando na sua vida e quero ficar nela por tempo indeterminado, teria como liberar um quarto para mim? Já estou levando a minha bagagem". Como posso me deixar amar e ser amado se aparentemente não tenho cuidado algum com as coisas que faço a mim mesmo? 

Resgato-me do meu próprio caos e eis que trovoa uma terça de manhã e eu sei que preciso continuar a faxina que venho fazendo dentro do meu corpo, meu lar. Chega de olhar para as estantes e ficar remorando antigos momentos, antigos sentimentos. Tudo isso é apego material, apego passado, passado de mão em mão, dia após dia, sentido por todos nós pelo menos uma vez na vida. Decido por pegar mais algumas caixas e encho-as com todas as tralhas que sei que não farão mais a menor diferença em minha vida. Penduro alguns espelhos pelos corredores para me lembrar de quem sou, do que procuro, de quem eu almejo ser. Para me lembrar que dessa vez eu estou inteiro, mesmo remendado e colado. Entro e limpo cada quarto, cada sala, sala banheiro, até que dou-me conta que só falta um lugar para ser limpo. Meu quartinho especial. Entro nele mais uma vez e sei que chegou a hora. Retiro as bugigangas e os móveis, pinto as paredes de branco, troco a fechadura e limpo o chão. Ao sair do quarto, tranco a porta e bato um prego nela. Prendo, então, uma placa onde se pode ler


"Alugo-me, com possibilidade de venda"


e espero que, desta vez, eu não esteja mentindo.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Culpa

É fácil dizer que a culpa é do computador por não conseguir escrever mais: ele foi trocado há pouco mais de um ano e, apesar de usá-lo todos os dias, suas mãos ainda não se acostumaram com o layout dos botões do teclado. É fácil dizer que a culpa é da chuva por não ter saído e tido que desmarcar aquele encontro com aquela garota maravilhosa com quem você sonha há anos. É fácil colocar a culpa na sua mãe ou no seu pai por ter chegado 10 minutos atrasado ao cinema. É fácil dizer que não acha aquele livro que você comprou há 7 anos mas que decidiu ler apenas agora e colocar a culpa na empregada, alegando que ela é incapaz ou insuficiente. 

É fácil culpar as coisas ou outra pessoa quando nada dá certo. "Minha culpa por ter enrolado e saído tarde do apartamento? Não, a culpa é daquele infeliz do motorista de ônibus que brecou em todos os sinais amarelos". A transferência de culpa é mais fácil do que uma transferência bancária. Não é burocrático, é apenas dizer, apontar o dedo para a bunda de outra pessoa. "Foi fulano, não eu!", como se estivesse delatando o assassino de um homicídio por estar com medo das consequências.

O medo de admitir que não escreve mais porque tem medo de descobrir que é e sempre foi incapaz, só teve uma fase boa por um tempo durante aqueles dias ensolarados. Agora anoiteceu e descobriu que não sabe de onde vinha toda aquela luz. Medo de admitir que você apenas se tornou preguiçoso. Medo de se deparar com seu antigo eu durante a escrita e não apreciar a visita.

O medo de admitir que não foi a empregada que mexeu no livro, mas foi você que, na última limpeza de livros, decidiu doá-lo por saber que aquela tinha sido uma compra eufórica: a capa era dura e bonita, porém você pouco se importava com o conteúdo. Tem medo de admitir, de lembrar, que você, no fundo, não tem fundo, que lê apenas para parecer intelectual, compra livros a torto e a direito apenas pela luxúria da visão, apenas para se gabar. Tão raso quanto uma poça após dois segundos de chuva. 

O medo de admitir que está com raiva dos pais por não terem comprado aquele celular super mega caro que você tanto queria; não por conta dos 10 minutos de trailers perdidos pelos quais você grita desnecessariamente sem se importar de fato. Medo de admitir que é ganancioso e infantil. 

O medo de admitir que tem medo. Medo de sair com a garota dos sonhos e os sonhos não serem mais sonhos, onde tudo é perfeito e o amor é eterno. Nada é eterno pois a eternidade está longe dos ombros da humanidade. Tem medo que, ao chegar no restaurante, descubra que as horas sonhando acordado foram desperdiçadas, medo de descobrir que o sentimento é recíproco, que ela também te ama mas que ela te largue por outra pessoa dois anos mais tarde. Medo de ser feliz.

Medo de ter medo.

Nosso ego não permite, muitas vezes, que assumamos nossos erros e as consequências de nossas ações. É instintivo. A merda aparece e você tem que dizer que foi outra pessoa, foi outra coisa, quem sabe não foi o cachorro? É assim que é o jogo e você tem que saber jogar. Levantamos nossos narizes e ficamos de "cu-doce" com coisas desnecessárias. Culpamos pessoas que nada têm a ver. O ego grita pela inocência do crime, chama as testemunhas, chantageia algumas e forja outras enquanto o julgamento prossegue e o juiz ainda não bateu o martelo pela última vez. 

Não aceitamos nossos limites, nem nossos equívocos, e muito menos que somos incapazes de grandeza. Somos humanos, afinal, deveríamos ser grandes, não deveríamos? Esse é o Sonho Americano: a Grandeza (demonstrada em sua quase totalidade pela coisas que gostaríamos de culpar: o carro de luxo cujo tanque esgotou no meio do percurso porque seu mordomo esqueceu de preenchê-lo; o celular mais rápido do mercado que não completa a ligação porque a operadora não lhe deu um dia a mais de créditos; o conjugue dos sonhos cujo corpo é divino mas é péssimo na cama). Se algo seguir um rumo diferente do que gostaríamos, não é nossa culpa: é de Deus, é do destino, é do gato que atravessou a rua, é da namorada, é do pai, é da avó, é do chefe. 

Nesta terra de covardes, quem admite a culpa é crucificado. 

sábado, 9 de setembro de 2017

Sabedoria

você sempre soube
que as coisas terminariam
assim
e mesmo
assim
foi

sempre soube que o medo
venceria
suas pernas
e cansaria seu coração
como um amor
de verão

sempre soube que o amor
seria paixão
e mataria suas entranhas
uma de cada vez
todas por uma vida
inteira
deixando você pobre
pedindo esmolas
de alma
em 
alma

você sempre soube
e mesmo assim 
foi

sabia da dor
sabia do vazio que sentiria após tomar dois ou três copos de cerveja
sabia do desespero que a acordaria de madrugada
sabia da imensidão solitária de seu ser
pedindo por mais alguém
para preencher os metros quadrados
a venda
sendo alugados
por qualquer um que deixasse pisar
em seus calos
sentimentais

sua coragem não se define na ausência de medo
nem na força
inumana
que cria para superar as dificuldades
mas no pensamento de que as coisas irão dar muito errado
e
mesmo assim
continuar sua procura
e
tentar novamente
amar

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Ecos à noite



A noite parece um parque de indagações. Enquanto a maioria se encontra em terras distantes e imaginárias, e alguns se encontram embriagados, eu me encontro inconformado e pensativo com tudo e todos que tiverem a oportunidade de passar pela minha mente. Os livros no banquinho que chamo de criado mudo, os livros na estante que nunca foram lidos, a coleção de filmes não assistidos, as perguntas nunca feitas, os relacionamentos que nunca existiram. A noite calada a não ser pela música transpassada pelos meus fones de ouvido. Eventuais carros quebram o silêncio e a serenidade das ruas e avenidas, mas não há ninguém para notar nem o antes e muito menos o depois. Somos o que somos e muitos são apenas aquilo que não são. Trocar a capa e manter a mesma história não faz ninguém acreditar que seja uma boa pessoa, a não ser através dos olhos do corpo. Os olhos da alma verão quem és, verão outono e inferno e primavera. E o vento bate, afaga e balança as janelas vorazmente, quem sabe na próxima investida não me leve refém de meus próprios desejos terrenos. Tudo treme, inclusive meu coração e meu eu, brincando pelo parque noturno das ideias sóbrias e peculiares. No meio de tudo, tento escrever, tento exercitar a já difícil tarefa que é botar sentimentos presos no cerne de quem sou, de quem somos, em significantes cheio de significados, ambiguidades, completudes, respostas. É um exercício complicado, cada expressão encontrada é um sucesso, uma conquista, um beijo de amor verdadeiro em um bar lotado. Mas para que escrever, sobre o que escrever? Escrevo talvez apenas pelo ato, escrevo apenas porque me dói se não o faço; sou mais incompleto do que antes, o abismo que em mim habita é maior e mais visível se eu não o alimento numa perspectiva negativa: quanto mais eu tiro, menor ele fica. Quem sabe não seja isso o que todos tentamos em situações diferentes. Para mim, a solidão afia o meu eu. Para quem mora ao lado, quem sabe o nada bem aplicado seja o remédio para os males; a ignorância reina absoluta dentre mares e oceanos de vida, apenas um ou dois rios não são navegados. Para quem está fora, quem sabe o calor de outros não satisfaça em mais de um sentido. De alguma maneira estamos sempre em busca de algo que preencha um buraco que parece crescer cada dia que se passa, cada conhecimento adquirido, cada amor amado e destituído de cargo. Se tento encontrar uma solução para tamanha tortura da existência em meio a nuvens mentais e ausência, sou apenas mais um que deve parar e pensar que raios estão caindo nas planícies do para sempre sempre nunca. Se amo, amo por ser quem sou, amo por quem és, e se sou amado e não correspondo, deveria enganar quem sou, sendo o que não sou, mentindo sentimentos para que o abismo de outro não seja ainda mais comprometido? Quem sou para alimentar a desilusão de outros seres? Talvez estejamos fadados a mesma dança eterna: eu vou, tu vais, ele e ela vão, todos dançam, todos se conhecem, todos se entendem, todos se encarnam, e todos logo vão-se. Digo que tudo são círculos e quem sabe não estamos sempre a dançar valsa, rodopiando pelo salão das ideias, preenchendo abismos, buracos e rachaduras com aquilo que parece mais correto, com aquilo que parece concreto, com aquilo que não pareça tão vulgar à nossa essência. Somos o que somos, somos o que nunca seremos: dançarinos da morte, tentando encontrar em cada parceiro, em cada dança, em cada música, cada som e palavra, um significado para a finita finitude de nossas vidas tão poucas e tão grandiosas. Amarguramos-nos quando as coisas não dão certo e sonhamos acordados com pesadelos do que poderia ser. Há coerência em sofrer por aquilo que não foi assim como há coerência em sofrer por amor? Deve haver se souber ler, se souber entender. Uma música toca, um abraço aquece, lágrimas derramam e a vida se esvai. Não há nada que eu possa fazer em minhas palavras a não ser afirmar o que é óbvio e ignorado. Mas quem, enfim, em consciência pura e honesta, com as velas acesas e os ecos notívagos rondando, quer saber da verdade que bate e bate na porta até que ela seja aberta e, ao fim, haja luz? 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Silêncio


Eu a conheci num fim de tarde, me sentido como um pedaço de chocolate para cobertura na presença do calor: meio amargo, não sabendo se me derreteria por completo ou se continuaria sólido. A atração foi mútua e foi sincera; havia nela um tom de canela, um pouco de açúcar, que poderia desamargar meu coração férreo. E assim ela fez com seu carinho, suas palavras de afeto, seus gestos de doçura, apaziguando o azedume em meu peito. Quando não nos víamos, nos correspondíamos por mensagens diárias, velocistas das distâncias físicas. E nos amamos...

Até o Silêncio.

Passados dois meses de paixão avassaladora, eis que surgiu o dilema da distância. Não eram mais os quilômetros que haviam entre nós que nos distanciava: eram os silêncios abruptos que surgiam no frio do dia, quando havia necessidade de afeto e carinho, quando precisávamos de uma fogueira só para saber que ainda havia luz após um dia que não foi um dos melhores. Quem respondia o chamado daquelas mensagens tão simples, envoltas por uma complexidade e um sentimentalismo que apenas os conjugados da relação poderia entender, como uma língua secreta válida somente aos amantes, era o Silêncio. As horas passavam e o Silêncio continuava me respondendo, mandando charadas e pensamentos que eu não queria acreditar que poderiam ser sólidos.

O Silêncio, então, começou a gostar da minha companhia e passou a me responder com mais frequência. Algumas vezes, ele passava mais de um dia falando comigo em sua linguagem encriptada. Eu não gostava de sua presença e deixei claro isso: moço, não quero falar com você, mas, sim, com minha Amada, então, por favor, se manda. Três dias depois, lá estava ele, falando pelos cotovelos.

Então as desculpas, não mais os presentes ou os ingressos de cinema, passaram a ser compradas. As saídas ficaram escassas. Estou sem dinheiro este mês, quem sabe no próximo. Promessas eram feitas nos raros momentos em que havia voz, e o ilusionismo de uma relação refrigerada era o que nos fazia companhia quando o Silêncio, chato, insuportável, indesejado, não calava sua boca. Só continuávamos ali por inércia; o atrito causado pelo Silêncio ia nos parando aos poucos, aos poucos, aos poucos... Quando vi, uma mensagem foi respondida. Não eram mais dois dias de presença do Indesejado. Eram dois meses. O que era amor, açúcar e risadas escancaradas se tornou lábios fechados, arrefecimento, chocolate de cobertura.

Tentamos realizar uma revolução e nos revitalizar. Parte ainda era a inércia, parte era o sentimentalismo enganado gerado pelo canto da sereia que cutucou meu coração depois de tanto tempo. Tentamos sem sucesso reencontrar aquele fim de tarde, com seu sol derretendo sua luz por entre clarões róseos e nuvens alaranjadas. Tentei correr para reencontrar aquele cenário, mas ele já havia sido esgotado; não havia mais assentos para nós.

O Silêncio me deu conforto por mais sete meses enquanto desaprendia a falar; aprendi apenas a escrever esperando ter minha voz escutada. Os sons cessaram, os pássaros migraram, o coração moldado em tenaz estrutura endureceu novamente. Se não há vozes que coloquem pontos finais nos sofrimentos amorosos, onde podemos colocá-los na falação do Rei Silêncio além de em nós mesmos? Já não sabemos falar; deixamos o Indesejado reinando por inércia, sem guerra alguma que ameace destruir seu reino, enquanto tentamos prosseguir com nossas vidas, esperando que haja risos e doçura novamente.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Persistência

No que adianta o ano ser novo, se as ações e os pensamentos são os mesmos, retrógrados, de sempre? Quando as coisas começam a ir mal, esperamos a nova oportunidade surgir, e ela surge na forma de um novo ano. "2016 foi horrível, mas 2017 está logo aí". Nunca paramos de ter esperança de que algo bom, afinal, acontecerá. Estamos destinados a grandeza, não estamos? Não foi isso o que nos ensinaram mas que não aprendemos? Uma hora as coisas darão certo, e o próximo ano, ou o próximo, ou o próximo, virá com a solução de nossas calamidades.

Chega o primeiro dia e pensamos "agora farei tudo diferente, serei uma pessoa melhor, vou à academia e comerei comidas saudáveis. Abandonarei aquele amor podre que guardo no coração e que já começou a mofar seus arredores. Estudarei/trabalharei com toda a dedicação que sou capaz. Serei uma pessoa melhor, transformarei meu eu num eu melhor". Até que a imaginação dura, pois as metas são frescas, as ideias possuem feições mais agradáveis em nossas mentes. Quando tentamos exercê-las no mundo real, elas são deturpadas, relaxadas, esquecidas e abandonadas. No que adianta ter esperança se não há persistência? Desistir perante as dificuldades é a coisa mais fácil do mundo; muitos batem com a cara na escama dura da vida real e não suportam a dor do encontro. Mas deveríamos persistir. A humanidade não chegou onde está desistindo quando os problemas diários se mostram mais complicados do que pareciam a princípio. Nem sempre os acontecimentos serão agendados ou seguirão nossos sonhos: eis, portanto, a graça da vida, enfrentar aquilo que não está, nunca esteve e/ou nunca estaria no roteiro de nossas vidas. 

Deveríamos abandonar aquilo que nos faz sofrer e nos leva pro fundo do poço; deveríamos resistir às tentações que sabemos que são prejudiciais; deveríamos ter esperança, como temos, e não desistir jamais de ter aquilo que tanto queremos. Quase nada na vida vem fácil, entretanto é grande a lista daquilo que fácil se esvai. Se quiser amor, procure amor. Se quiser companheirismo, converse. Se quiser desistir, peça ajuda. Mas não duvide de suas capacidades, não duvide de quem é, não duvide de seu corpo e muito menos duvide de seus sonhos. Aproveite o ano que virá e conserte aquilo que deu errado. Reate velhas conexões, corte aquilo que só te destrói de uma maneira ou outra e persista. Mais importante do que ter novas oportunidades é agarrá-las e não soltá-las. Se cada dia do ano que logo mais vem é uma nova página, use-as com sabedoria, escreva em todas com tudo aquilo que puder. Carpe diem, memento mori. Do que servirão as dores e arrependimentos uma vez que estivermos mortos? 

O ano é novo. Todos os dias que ainda não chegaram são novos também. Você não é novo, já tem bagagem, já tem experiência. Não cometa os mesmos erros, não desista. Seja mais humilde, mais empático e mais racional. Seja mais passional. Se equilibre no muro das emoções e seja mais humano. Mais você. Seja mais seus sonhos e transforme-os em realidade. 

Feliz 2017, e, por favor:


Não desista.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Covardia



Era uma vez um covarde que se metia, uma hora ou outra, durante seu caminho escuro e desconhecido, em alguma situação em que a covardia de sua mente falava mais alto do que a coragem de seu coração.

Uma vez, ele conheceu uma garota pela internet e ficou conversando com ela por meses, apenas acariciando o sentimento que tinha por ela, mantendo vivo com sua própria respiração, mantendo a luz somente para si mesmo. Ele só foi se abrir em relação aos seus sentimentos quando uma terceira pessoa, conhecida dele e da garota em questão, se envolveu na situação e garantiu que a moça estava, também, queimando sua própria tocha de sentimentos. Uma vez seguro, ele avançou. Namoraram.

Uma vez, ele conheceu uma garota numa livraria, e ó meus deuses, ela tinha todos os livros que ele queria ler e muito mais. Demorou vários encontros para que ele finalmente tivesse a coragem de fazer alguma coisa... ele saiu correndo uma hora, chegou na casa da felizarda e a pediu em namoro. Não houve um beijo, houve apenas um abraço. O beijo viria dentro de uma semana e meia. As borboletas em seu estômago, a ânsia de fazer algo errado mesmo parecendo que tudo saria certo. As superações. A vergonha e o mal-jeito.

Uma vez, ele se apaixonou intensamente por uma garota de sua sala e nunca, jamais, até o dia de hoje, disse que a amava. Ele preferiu seguir a vida sem fazer a escolha ousada que poderia machucá-lo. Ocultar. Esconder. Dissimular. Mentir. No final, ele deixou muito tempo passar e a perdeu.

Uma vez, esperando uma amiga na saída do shopping, ele se deparou com duas meninas conversando. Ele olhou para uma delas. Ela retribuiu o olhar. Houve um sorriso, uma faísca. Ao passar de novo pela saída, agora uma entrada, ele se deparou com as garotas ainda conversando. Ele olhou. Ela olhou, Houve sorrisos. Houve faíscas. Ela falou olá. Ele falou um olá tão travado que pareceu ser mexicano. Quis voltar e rir da situação, pedir o número de seu celular.  Ele seguiu a vida.

Uma vez, ele baixou um aplicativo para encontrar garotas e encontrou várias. Conversou com menos da metade. Menos do que um terço ou um quarto. Menos, menos. Quase se envolveu com uma delas e, como toda relação recíproca, ela esfriou e ficou no limbo.

Uma vez, ele sonhou com uma garota que já conhecia. No sonho, eles se beijavam. O beijo era bom, era feito de luz e pura felicidade. Ele acordou feliz e entrou na internet. Viu que a garota beijada no sonho namorava e voltou a dormir.

Várias vezes ele foi a festas sem saber por quê. Bebeu, sentou, esperou a noite passar. Mulheres passaram, mulheres sentaram, mulheres conversaram, mulheres se foram. Nunca houve nada. Nunca havia espaço para nada. Ele não se dava espaço ou permissão para o desperdício do momento.

Agora ele só quer ser feliz, mas sabe que é um covarde. Quer chamar uma garota, a mesma do sonho, para sair há meses, e não tem a coragem o suficiente para fazer a ligação. Manda indiretas para saber se ambos tem o mesmo interesse e nunca recebe uma resposta válida. Ele se pergunta "é seguro? Deveria fazer isso mesmo? E se ela não gostar de mim? E se ela disser não?". E se, e se, e se... O medo é mãe de todos os arrependimentos que virão com o decorrer da vida.

Somos poeira estelar rotacionando em cima de um planeta que circula uma bola de fogo que circula dentro de um sistema próprio, dentro de uma galáxia, de uma faixa de coisas desconhecidas que talvez nunca nomearemos. Somos carne, mente e alma. Somos aquilo que somos no momento que somos e num momento adiante, estaremos todos mortos, voltando a ser poeira estelar e almas soltas, encarando a rotação da existência em seu infinito existir. Vivemos nossas vidas com dias finitos nos preocupando com coisas que, no fundo, não deveríamos. Nos preocupamos com as festas, com o trabalho que ocupa mais horas de nossas vidas do que gostaríamos, com as pessoas que somente nos fazem mal, com os negativos e caóticos lados das coisas. Nos preocupamos com os erros, desde os de digitação até aqueles que colecionamos dia a dia. Não há certo e errado. Não há dicotomia na vida ou extremismos. É só que parece mais fácil se dividirmos dessa forma. Eu e você. Nós e eles. Fiz algo certo, fiz bosta.

O medo, a covardia, surge de várias formas. Você pode ter medo de fazer aquela ligação. Pode ter medo de perder a pessoa que mais ama. Pode ter medo de morrer sem fazer aquilo que mais queria. Pode ter medo por saber que um dia vai morrer. Pode ter medo de seguir a carreira de seus sonhos por achar que não vai dar certo. Pode ter medo de flertar, de se machucar. De seguir a vida. Medo de ser você. Medo de se sentir sozinho pelo resto dos dias que virão e, portanto, sentir a necessidade de sair todas as semanas em busca de algo que preencha seu coração vazio, como bebidas, comida ou sexo que nada significa além de uma bela diversão momentânea. Somos uma nação de medrosos, covardes. Passamos nossas vidas buscando maneiras de continuar a farsa, fingir que está tudo bem quando a ferida é exposta e sangra com frequência. As máscaras só servem para dançar. Todo o momento se esvai. Todo passo dado é um passo a menos, cada respiração é uma respiração a menos. Errar é humano, todos dizemos isso, mas sabemos que há uma hipocrisia. Ninguém quer errar. Ninguém quer aceitar as verdades da existência, as consequências. Somos covardes com nossas máscaras dançando a dança da sobrevivência e da exclusão.

E era uma vez um covarde, um super covarde, cuja única função era apertar um botão e ligar para a garota de seus sonhos.

Ele apertou. O celular começou a chamar. Ela atendeu, ele fez o convite. E a resposta dela foi:

domingo, 23 de outubro de 2016

Costumava



As primeiras impressões são as derrocadas da vida. Você vai chegando mais e mais ao encontro de tantas noites especuladoras em seu coração sonhador. Não mais tantas, são apenas uma. É hoje. Depois é amanhã. Você sabe que quer e você vai. As mesas espalhadas pelo céu estrelado, o calor humano transcendendo o som da virtude, a bebida pronta para arranhar gargantas com beijos de fogo frio. O bate e vai das caras antigas de minutos passageiros. Todos estão lá e todos além do mundo conhecido. Você pede o seu pedido. Derrete o frio das entranhas e se prepara para o inferno que a madrugada prepara tão carinhosamente. Mas você não quer carinho. Você quer algo um pouco mais porque hoje está demais de menos do que você gostaria. As brigas em sua alma, os tapas na cara, o azedume do passado. Você costumava dar beijos de pura entrega. Hoje que se danem os cafunes; que venham, apenas venham. Venham venham venham venham... E alguém vem. De aparência tanto faz, mas você não é tanto faz. Um primeiro não fará sua noite. Você dá a carta de derrota e segue a passagem. Chegam mais tantos. Um para cá, um para lá, todos desmerecedores. Cadê? Você olha ao redor e vê. Nem espera a chegada: é você quem chega. E as coisas simplesmente vão. O olhar. A conversa. O bafo. A mão. A puxada. O beijo, mascado dentre uma mordida. Vão, vão, vão. De repente, se arrepende. Larga a mão, puxa o ar, empurra o hálito para fora. Só vai, vai, vai. Costumava ser uma menina. Chorona, debruçada entre dores e paqueras. Hoje é uma mulher. E o sabor nunca foi tão amargo. Você gosta e volta. E volta. E volta. Volta. As noites são as primeiras impressões da derrota. Os lençóis sujos, a calcinha de seda rasgada. O ato animal. Quem? É só mais um quem. Tanto faz. À noite, todos parecem os mesmos com suas dores e desprazeres, com suas caras bêbadas no bar mais próximo. A onda te leva e você só vai e gosta, aproveita o amargor. O refluxo segue a se repetir. Cansada. Costumava ser melhor do que isso. Costumava beber menos do que isso. Costumava fumar menos do que isso. Costumava mais do que isso. Animal. Frio quente descendo a garganta, a loucura da sedução, a captura, o chupão, o ato, o prazer, o desprazer, a retomada carnal da vida. Costumava ser uma garota e agora: eis a mulher, forte, dominante, cheia de si. Costumava haver algo mais. Vem o carnalismo. Costumava ser diferente. Desolhares. Costumava só costumar, costurar um coração remendado de anos e anos de uso. Costumava dançar sozinha. Costumava ter calor. Ainda é quente, quase fervente. E lá vem o calor. Costumava ser melhor. Costumava. Costumava e amava.