domingo, 23 de outubro de 2016

Costumava



As primeiras impressões são as derrocadas da vida. Você vai chegando mais e mais ao encontro de tantas noites especuladoras em seu coração sonhador. Não mais tantas, são apenas uma. É hoje. Depois é amanhã. Você sabe que quer e você vai. As mesas espalhadas pelo céu estrelado, o calor humano transcendendo o som da virtude, a bebida pronta para arranhar gargantas com beijos de fogo frio. O bate e vai das caras antigas de minutos passageiros. Todos estão lá e todos além do mundo conhecido. Você pede o seu pedido. Derrete o frio das entranhas e se prepara para o inferno que a madrugada prepara tão carinhosamente. Mas você não quer carinho. Você quer algo um pouco mais porque hoje está demais de menos do que você gostaria. As brigas em sua alma, os tapas na cara, o azedume do passado. Você costumava dar beijos de pura entrega. Hoje que se danem os cafunes; que venham, apenas venham. Venham venham venham venham... E alguém vem. De aparência tanto faz, mas você não é tanto faz. Um primeiro não fará sua noite. Você dá a carta de derrota e segue a passagem. Chegam mais tantos. Um para cá, um para lá, todos desmerecedores. Cadê? Você olha ao redor e vê. Nem espera a chegada: é você quem chega. E as coisas simplesmente vão. O olhar. A conversa. O bafo. A mão. A puxada. O beijo, mascado dentre uma mordida. Vão, vão, vão. De repente, se arrepende. Larga a mão, puxa o ar, empurra o hálito para fora. Só vai, vai, vai. Costumava ser uma menina. Chorona, debruçada entre dores e paqueras. Hoje é uma mulher. E o sabor nunca foi tão amargo. Você gosta e volta. E volta. E volta. Volta. As noites são as primeiras impressões da derrota. Os lençóis sujos, a calcinha de seda rasgada. O ato animal. Quem? É só mais um quem. Tanto faz. À noite, todos parecem os mesmos com suas dores e desprazeres, com suas caras bêbadas no bar mais próximo. A onda te leva e você só vai e gosta, aproveita o amargor. O refluxo segue a se repetir. Cansada. Costumava ser melhor do que isso. Costumava beber menos do que isso. Costumava fumar menos do que isso. Costumava mais do que isso. Animal. Frio quente descendo a garganta, a loucura da sedução, a captura, o chupão, o ato, o prazer, o desprazer, a retomada carnal da vida. Costumava ser uma garota e agora: eis a mulher, forte, dominante, cheia de si. Costumava haver algo mais. Vem o carnalismo. Costumava ser diferente. Desolhares. Costumava só costumar, costurar um coração remendado de anos e anos de uso. Costumava dançar sozinha. Costumava ter calor. Ainda é quente, quase fervente. E lá vem o calor. Costumava ser melhor. Costumava. Costumava e amava. 

domingo, 16 de outubro de 2016

Problema

Talvez eu tenha achado o problema. Aquele velho problema que me impede de escrever, de sentar e ler um bom livro, de abrir uma janela de ar e deixar uma conversa inusitada percorrer os arredores. O problema que não é marcado com um grande X vermelho, portanto difícil de ser achado. Aquele Problema. O Problema que me impede de amar novamente, de ser romântico, de ser sincero com meus sentimentos. 

Que não me deixa ser feliz.

Que não me deixa em paz.

Que não me permite.

Que não me deixa.

Que não vai embora.

O Velho Problema, sentado em sua cadeira de balanço, balançando suas correntes de destruição naquilo que chamo de vida, rindo enquanto aprecia o caos. O Não Tão Velho Assim Problema, que sempre se repete porque eu nunca aprendo. O Problema Problemático que faz do meu ser asilo e estação, um Problema que eu tendo sempre a enxergar mas nunca ver de fato. Nunca lidar, nunca tentar. Sempre ali, gargalhando de meus fracassos pessoais: o amor que foi me dado e me foi tirado; as longas horas de conversa pela madrugada afora, os prazeres espirituais de amar; a incapacidade de dizer que amo; a incapacidade de ir além. A risada ecoa forte nas rimas clichês da vida.

"Quantas vezes tive meu eu machucado?" acabo me perguntado todos os dias antes de dormir, buscando uma solução para minha insônia peculiar. Repenso e relembro. Ela vem, depois ela, e depois ela, e depois ela... Baixo a lista de depoimentos policiais. Os boletins de ocorrência. Levo todas para uma sala extensa, cada uma segurando uma placa de identificação. A sala é fechada e as observo por uma janela de vista única. Eu as observo, mas elas não sabem de fato que estão sendo observadas. Minha visão tende a me enganar e peço ajuda de um oculista. Ele me receita novos óculos. Ainda vejo as coisas embaçadas e tenho que cancelar a grande "festa". O cenário ocorre mais e mais vezes, sempre com um novo par de óculos. Uma vez ganhei até um novo sorriso, praticamente uma dentadura. Quase recebi outro rosto, porém ficaria muito caro. Mas uma vez, a última, o oculista não veio. Nem o oftalmologista. Nenhum médico, nenhum cirurgião. Havia apenas um senhor gargalhador segurando um espelho. Ele ria enquanto a minha imagem refletida balançava para cima e para baixo por causa da cadeira. Finalmente notei o que havia de errado e pedi para os seguranças um telefone. Arranjei-me novos óculos, especiais, e tirei o espelho das mãos do senhor. As risadas pararam logo após. Observei o eco do meu ser no vidro sujo e percebi onde estava o problema. Lógico. O problema sempre havia sido eu. Não importa o que havia acontecido. Lembro dos advogados delas dizendo que as coisas assim são e que eu não poderia culpá-las de nada além do que fizeram, do que realmente havia acontecido. O restante do estrago foi feito por mim mesmo. Eu que quebrei as prateleiras do meu domínio. Eu que fingi ser poeta e aumentei minha dor. Eu que culpei a todas e todos sem me incluir na lista. Eu que havia envelhecido 70 anos ou mais e agora ficava sentado rindo da insolência das minhas ações passadas. 

Não havia esperança mais além daquela que eu mesmo injetava. A esperança escrita era sempre uma esperança morta, falsificada. A verdadeira esperança é ser. É sair. É ter a coragem de fazer aquilo que é racionalmente errado. É lavar as feridas com sal grosso e água de mar. É não se limitar a desculpas fajutas para não viver e não se machucar. 

A verdadeira esperança está em escrever, em não perder o tom. Em deixar sair aquilo que precisar, em limpar a dor com sinceridade, com música, com afeto. Com açúcar e canela. É olhar para o horizonte às 5h45 da manhã e apreciar um novo dia. É respirar fundo, se acalmar. Aproveitar o tempo e desperdiçá-lo num momento que toque profundamente seu espírito. É se deixar apaixonar mesmo que não dure. É não usar máscaras falsas, sorrisos falsos, palavras falsas, olhares falsos. É parar de tentar ser e apenas ser.  É a solução do problema, é o caminho de tijolos dourados rumo à casa. É escrever para libertar sentimentos reprimidos e escrever por pura vontade artística de ser. 

É o meu amor voltando a ser amor.