quinta-feira, 6 de abril de 2017

Ecos à noite



A noite parece um parque de indagações. Enquanto a maioria se encontra em terras distantes e imaginárias, e alguns se encontram embriagados, eu me encontro inconformado e pensativo com tudo e todos que tiverem a oportunidade de passar pela minha mente. Os livros no banquinho que chamo de criado mudo, os livros na estante que nunca foram lidos, a coleção de filmes não assistidos, as perguntas nunca feitas, os relacionamentos que nunca existiram. A noite calada a não ser pela música transpassada pelos meus fones de ouvido. Eventuais carros quebram o silêncio e a serenidade das ruas e avenidas, mas não há ninguém para notar nem o antes e muito menos o depois. Somos o que somos e muitos são apenas aquilo que não são. Trocar a capa e manter a mesma história não faz ninguém acreditar que seja uma boa pessoa, a não ser através dos olhos do corpo. Os olhos da alma verão quem és, verão outono e inferno e primavera. E o vento bate, afaga e balança as janelas vorazmente, quem sabe na próxima investida não me leve refém de meus próprios desejos terrenos. Tudo treme, inclusive meu coração e meu eu, brincando pelo parque noturno das ideias sóbrias e peculiares. No meio de tudo, tento escrever, tento exercitar a já difícil tarefa que é botar sentimentos presos no cerne de quem sou, de quem somos, em significantes cheio de significados, ambiguidades, completudes, respostas. É um exercício complicado, cada expressão encontrada é um sucesso, uma conquista, um beijo de amor verdadeiro em um bar lotado. Mas para que escrever, sobre o que escrever? Escrevo talvez apenas pelo ato, escrevo apenas porque me dói se não o faço; sou mais incompleto do que antes, o abismo que em mim habita é maior e mais visível se eu não o alimento numa perspectiva negativa: quanto mais eu tiro, menor ele fica. Quem sabe não seja isso o que todos tentamos em situações diferentes. Para mim, a solidão afia o meu eu. Para quem mora ao lado, quem sabe o nada bem aplicado seja o remédio para os males; a ignorância reina absoluta dentre mares e oceanos de vida, apenas um ou dois rios não são navegados. Para quem está fora, quem sabe o calor de outros não satisfaça em mais de um sentido. De alguma maneira estamos sempre em busca de algo que preencha um buraco que parece crescer cada dia que se passa, cada conhecimento adquirido, cada amor amado e destituído de cargo. Se tento encontrar uma solução para tamanha tortura da existência em meio a nuvens mentais e ausência, sou apenas mais um que deve parar e pensar que raios estão caindo nas planícies do para sempre sempre nunca. Se amo, amo por ser quem sou, amo por quem és, e se sou amado e não correspondo, deveria enganar quem sou, sendo o que não sou, mentindo sentimentos para que o abismo de outro não seja ainda mais comprometido? Quem sou para alimentar a desilusão de outros seres? Talvez estejamos fadados a mesma dança eterna: eu vou, tu vais, ele e ela vão, todos dançam, todos se conhecem, todos se entendem, todos se encarnam, e todos logo vão-se. Digo que tudo são círculos e quem sabe não estamos sempre a dançar valsa, rodopiando pelo salão das ideias, preenchendo abismos, buracos e rachaduras com aquilo que parece mais correto, com aquilo que parece concreto, com aquilo que não pareça tão vulgar à nossa essência. Somos o que somos, somos o que nunca seremos: dançarinos da morte, tentando encontrar em cada parceiro, em cada dança, em cada música, cada som e palavra, um significado para a finita finitude de nossas vidas tão poucas e tão grandiosas. Amarguramos-nos quando as coisas não dão certo e sonhamos acordados com pesadelos do que poderia ser. Há coerência em sofrer por aquilo que não foi assim como há coerência em sofrer por amor? Deve haver se souber ler, se souber entender. Uma música toca, um abraço aquece, lágrimas derramam e a vida se esvai. Não há nada que eu possa fazer em minhas palavras a não ser afirmar o que é óbvio e ignorado. Mas quem, enfim, em consciência pura e honesta, com as velas acesas e os ecos notívagos rondando, quer saber da verdade que bate e bate na porta até que ela seja aberta e, ao fim, haja luz? 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Silêncio


Eu a conheci num fim de tarde, me sentido como um pedaço de chocolate para cobertura na presença do calor: meio amargo, não sabendo se me derreteria por completo ou se continuaria sólido. A atração foi mútua e foi sincera; havia nela um tom de canela, um pouco de açúcar, que poderia desamargar meu coração férreo. E assim ela fez com seu carinho, suas palavras de afeto, seus gestos de doçura, apaziguando o azedume em meu peito. Quando não nos víamos, nos correspondíamos por mensagens diárias, velocistas das distâncias físicas. E nos amamos...

Até o Silêncio.

Passados dois meses de paixão avassaladora, eis que surgiu o dilema da distância. Não eram mais os quilômetros que haviam entre nós que nos distanciava: eram os silêncios abruptos que surgiam no frio do dia, quando havia necessidade de afeto e carinho, quando precisávamos de uma fogueira só para saber que ainda havia luz após um dia que não foi um dos melhores. Quem respondia o chamado daquelas mensagens tão simples, envoltas por uma complexidade e um sentimentalismo que apenas os conjugados da relação poderia entender, como uma língua secreta válida somente aos amantes, era o Silêncio. As horas passavam e o Silêncio continuava me respondendo, mandando charadas e pensamentos que eu não queria acreditar que poderiam ser sólidos.

O Silêncio, então, começou a gostar da minha companhia e passou a me responder com mais frequência. Algumas vezes, ele passava mais de um dia falando comigo em sua linguagem encriptada. Eu não gostava de sua presença e deixei claro isso: moço, não quero falar com você, mas, sim, com minha Amada, então, por favor, se manda. Três dias depois, lá estava ele, falando pelos cotovelos.

Então as desculpas, não mais os presentes ou os ingressos de cinema, passaram a ser compradas. As saídas ficaram escassas. Estou sem dinheiro este mês, quem sabe no próximo. Promessas eram feitas nos raros momentos em que havia voz, e o ilusionismo de uma relação refrigerada era o que nos fazia companhia quando o Silêncio, chato, insuportável, indesejado, não calava sua boca. Só continuávamos ali por inércia; o atrito causado pelo Silêncio ia nos parando aos poucos, aos poucos, aos poucos... Quando vi, uma mensagem foi respondida. Não eram mais dois dias de presença do Indesejado. Eram dois meses. O que era amor, açúcar e risadas escancaradas se tornou lábios fechados, arrefecimento, chocolate de cobertura.

Tentamos realizar uma revolução e nos revitalizar. Parte ainda era a inércia, parte era o sentimentalismo enganado gerado pelo canto da sereia que cutucou meu coração depois de tanto tempo. Tentamos sem sucesso reencontrar aquele fim de tarde, com seu sol derretendo sua luz por entre clarões róseos e nuvens alaranjadas. Tentei correr para reencontrar aquele cenário, mas ele já havia sido esgotado; não havia mais assentos para nós.

O Silêncio me deu conforto por mais sete meses enquanto desaprendia a falar; aprendi apenas a escrever esperando ter minha voz escutada. Os sons cessaram, os pássaros migraram, o coração moldado em tenaz estrutura endureceu novamente. Se não há vozes que coloquem pontos finais nos sofrimentos amorosos, onde podemos colocá-los na falação do Rei Silêncio além de em nós mesmos? Já não sabemos falar; deixamos o Indesejado reinando por inércia, sem guerra alguma que ameace destruir seu reino, enquanto tentamos prosseguir com nossas vidas, esperando que haja risos e doçura novamente.