terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Silêncio


Eu a conheci num fim de tarde, me sentido como um pedaço de chocolate para cobertura na presença do calor: meio amargo, não sabendo se me derreteria por completo ou se continuaria sólido. A atração foi mútua e foi sincera; havia nela um tom de canela, um pouco de açúcar, que poderia desamargar meu coração férreo. E assim ela fez com seu carinho, suas palavras de afeto, seus gestos de doçura, apaziguando o azedume em meu peito. Quando não nos víamos, nos correspondíamos por mensagens diárias, velocistas das distâncias físicas. E nos amamos...

Até o Silêncio.

Passados dois meses de paixão avassaladora, eis que surgiu o dilema da distância. Não eram mais os quilômetros que haviam entre nós que nos distanciava: eram os silêncios abruptos que surgiam no frio do dia, quando havia necessidade de afeto e carinho, quando precisávamos de uma fogueira só para saber que ainda havia luz após um dia que não foi um dos melhores. Quem respondia o chamado daquelas mensagens tão simples, envoltas por uma complexidade e um sentimentalismo que apenas os conjugados da relação poderia entender, como uma língua secreta válida somente aos amantes, era o Silêncio. As horas passavam e o Silêncio continuava me respondendo, mandando charadas e pensamentos que eu não queria acreditar que poderiam ser sólidos.

O Silêncio, então, começou a gostar da minha companhia e passou a me responder com mais frequência. Algumas vezes, ele passava mais de um dia falando comigo em sua linguagem encriptada. Eu não gostava de sua presença e deixei claro isso: moço, não quero falar com você, mas, sim, com minha Amada, então, por favor, se manda. Três dias depois, lá estava ele, falando pelos cotovelos.

Então as desculpas, não mais os presentes ou os ingressos de cinema, passaram a ser compradas. As saídas ficaram escassas. Estou sem dinheiro este mês, quem sabe no próximo. Promessas eram feitas nos raros momentos em que havia voz, e o ilusionismo de uma relação refrigerada era o que nos fazia companhia quando o Silêncio, chato, insuportável, indesejado, não calava sua boca. Só continuávamos ali por inércia; o atrito causado pelo Silêncio ia nos parando aos poucos, aos poucos, aos poucos... Quando vi, uma mensagem foi respondida. Não eram mais dois dias de presença do Indesejado. Eram dois meses. O que era amor, açúcar e risadas escancaradas se tornou lábios fechados, arrefecimento, chocolate de cobertura.

Tentamos realizar uma revolução e nos revitalizar. Parte ainda era a inércia, parte era o sentimentalismo enganado gerado pelo canto da sereia que cutucou meu coração depois de tanto tempo. Tentamos sem sucesso reencontrar aquele fim de tarde, com seu sol derretendo sua luz por entre clarões róseos e nuvens alaranjadas. Tentei correr para reencontrar aquele cenário, mas ele já havia sido esgotado; não havia mais assentos para nós.

O Silêncio me deu conforto por mais sete meses enquanto desaprendia a falar; aprendi apenas a escrever esperando ter minha voz escutada. Os sons cessaram, os pássaros migraram, o coração moldado em tenaz estrutura endureceu novamente. Se não há vozes que coloquem pontos finais nos sofrimentos amorosos, onde podemos colocá-los na falação do Rei Silêncio além de em nós mesmos? Já não sabemos falar; deixamos o Indesejado reinando por inércia, sem guerra alguma que ameace destruir seu reino, enquanto tentamos prosseguir com nossas vidas, esperando que haja risos e doçura novamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário