quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Covardia



Era uma vez um covarde que se metia, uma hora ou outra, durante seu caminho escuro e desconhecido, em alguma situação em que a covardia de sua mente falava mais alto do que a coragem de seu coração.

Uma vez, ele conheceu uma garota pela internet e ficou conversando com ela por meses, apenas acariciando o sentimento que tinha por ela, mantendo vivo com sua própria respiração, mantendo a luz somente para si mesmo. Ele só foi se abrir em relação aos seus sentimentos quando uma terceira pessoa, conhecida dele e da garota em questão, se envolveu na situação e garantiu que a moça estava, também, queimando sua própria tocha de sentimentos. Uma vez seguro, ele avançou. Namoraram.

Uma vez, ele conheceu uma garota numa livraria, e ó meus deuses, ela tinha todos os livros que ele queria ler e muito mais. Demorou vários encontros para que ele finalmente tivesse a coragem de fazer alguma coisa... ele saiu correndo uma hora, chegou na casa da felizarda e a pediu em namoro. Não houve um beijo, houve apenas um abraço. O beijo viria dentro de uma semana e meia. As borboletas em seu estômago, a ânsia de fazer algo errado mesmo parecendo que tudo saria certo. As superações. A vergonha e o mal-jeito.

Uma vez, ele se apaixonou intensamente por uma garota de sua sala e nunca, jamais, até o dia de hoje, disse que a amava. Ele preferiu seguir a vida sem fazer a escolha ousada que poderia machucá-lo. Ocultar. Esconder. Dissimular. Mentir. No final, ele deixou muito tempo passar e a perdeu.

Uma vez, esperando uma amiga na saída do shopping, ele se deparou com duas meninas conversando. Ele olhou para uma delas. Ela retribuiu o olhar. Houve um sorriso, uma faísca. Ao passar de novo pela saída, agora uma entrada, ele se deparou com as garotas ainda conversando. Ele olhou. Ela olhou, Houve sorrisos. Houve faíscas. Ela falou olá. Ele falou um olá tão travado que pareceu ser mexicano. Quis voltar e rir da situação, pedir o número de seu celular.  Ele seguiu a vida.

Uma vez, ele baixou um aplicativo para encontrar garotas e encontrou várias. Conversou com menos da metade. Menos do que um terço ou um quarto. Menos, menos. Quase se envolveu com uma delas e, como toda relação recíproca, ela esfriou e ficou no limbo.

Uma vez, ele sonhou com uma garota que já conhecia. No sonho, eles se beijavam. O beijo era bom, era feito de luz e pura felicidade. Ele acordou feliz e entrou na internet. Viu que a garota beijada no sonho namorava e voltou a dormir.

Várias vezes ele foi a festas sem saber por quê. Bebeu, sentou, esperou a noite passar. Mulheres passaram, mulheres sentaram, mulheres conversaram, mulheres se foram. Nunca houve nada. Nunca havia espaço para nada. Ele não se dava espaço ou permissão para o desperdício do momento.

Agora ele só quer ser feliz, mas sabe que é um covarde. Quer chamar uma garota, a mesma do sonho, para sair há meses, e não tem a coragem o suficiente para fazer a ligação. Manda indiretas para saber se ambos tem o mesmo interesse e nunca recebe uma resposta válida. Ele se pergunta "é seguro? Deveria fazer isso mesmo? E se ela não gostar de mim? E se ela disser não?". E se, e se, e se... O medo é mãe de todos os arrependimentos que virão com o decorrer da vida.

Somos poeira estelar rotacionando em cima de um planeta que circula uma bola de fogo que circula dentro de um sistema próprio, dentro de uma galáxia, de uma faixa de coisas desconhecidas que talvez nunca nomearemos. Somos carne, mente e alma. Somos aquilo que somos no momento que somos e num momento adiante, estaremos todos mortos, voltando a ser poeira estelar e almas soltas, encarando a rotação da existência em seu infinito existir. Vivemos nossas vidas com dias finitos nos preocupando com coisas que, no fundo, não deveríamos. Nos preocupamos com as festas, com o trabalho que ocupa mais horas de nossas vidas do que gostaríamos, com as pessoas que somente nos fazem mal, com os negativos e caóticos lados das coisas. Nos preocupamos com os erros, desde os de digitação até aqueles que colecionamos dia a dia. Não há certo e errado. Não há dicotomia na vida ou extremismos. É só que parece mais fácil se dividirmos dessa forma. Eu e você. Nós e eles. Fiz algo certo, fiz bosta.

O medo, a covardia, surge de várias formas. Você pode ter medo de fazer aquela ligação. Pode ter medo de perder a pessoa que mais ama. Pode ter medo de morrer sem fazer aquilo que mais queria. Pode ter medo por saber que um dia vai morrer. Pode ter medo de seguir a carreira de seus sonhos por achar que não vai dar certo. Pode ter medo de flertar, de se machucar. De seguir a vida. Medo de ser você. Medo de se sentir sozinho pelo resto dos dias que virão e, portanto, sentir a necessidade de sair todas as semanas em busca de algo que preencha seu coração vazio, como bebidas, comida ou sexo que nada significa além de uma bela diversão momentânea. Somos uma nação de medrosos, covardes. Passamos nossas vidas buscando maneiras de continuar a farsa, fingir que está tudo bem quando a ferida é exposta e sangra com frequência. As máscaras só servem para dançar. Todo o momento se esvai. Todo passo dado é um passo a menos, cada respiração é uma respiração a menos. Errar é humano, todos dizemos isso, mas sabemos que há uma hipocrisia. Ninguém quer errar. Ninguém quer aceitar as verdades da existência, as consequências. Somos covardes com nossas máscaras dançando a dança da sobrevivência e da exclusão.

E era uma vez um covarde, um super covarde, cuja única função era apertar um botão e ligar para a garota de seus sonhos.

Ele apertou. O celular começou a chamar. Ela atendeu, ele fez o convite. E a resposta dela foi:

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